Histórico

Histórico do Centro de Estudos Peirceanos
Lucia Santaella

1. Do início dos estudos de Peirce na PUC/SP à criação do Centro de Estudos Peirceanos

Desde o início da década de 1970, a obra do norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), cientista, lógico, filósofo e criador da moderna ciência semiótica, vem sendo estudada na PUC de São Paulo. O pensamento de Peirce não entrou nessa universidade pela via da lógica, nem pela via da filosofia, mas pela via da semiótica. Naquela época, o atual Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica se chamava Teoria Literária, fundado e coordenado por Lucrécia Ferrara, pioneira junto com Joel Martins e Antonieta Alba Celani na criação dos programas de estudos pós-graduados na PUC/SP, esses mesmos que cresceram, multiplicaram-se, trazendo hoje tanto prestígio acadêmico a essa universidade.

Foi nas magníficas aulas de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, primeiros professores do programa de Teoria Literária, que a teoria dos signos de Peirce começou a ser interpretada no Brasil. Em 1970, Haroldo de Campos organizou a edição para a Editora Perspectiva da Pequena Estética de Max Bense, filósofo alemão e divulgador primeiro da obra peirceana em seu país. Em 1972, a Editora Cultrix editou, com tradução de Octanny S. da Mota e Leonidas Hegenberg, mais coletânea de escritos escolhidos de Charles Sanders Peirce. Essa coletânea antecederia em muitos anos, as primeiras coletâneas de textos traduzidos de Peirce em vários países da Europa. Enfim, foi com salutar precocidade que se deu o plantio das primeiras sementes dos estudos peirceanos no Brasil, cuja dianteira foi tomada pela pós-graduação em Teoria Literária da PUCSP.

Em 1978, esse antigo programa ampliou-se interdisciplinarmente numa proposta de estudos pós-graduados em Comunicação e Semiótica (COS). Sob essa nova sigla, que dura até hoje, e com novas perspectivas comunicacionais, a semiótica encontrou solo fértil para se desenvolver e se diversificar. A semiótica peirceana entrou em convivência com outras correntes da semiótica – saussuriana, hjelmsleviana, soviética, greimasiana, barthesiana etc. – formando um conjunto teórico aberto e crítico que, desde então, espraiou-se numa variada gama e campos de aplicações: literatura, artes, som, música, oralidade, dança, performance, jornal, rádio, imagens técnicas da era eletro-mecânica – fotografia e cinema -, da era eletrônica – televisão, vídeo – e da era teleinformática – infografia, infovias etc.

A vocação interdisciplinar da semiótica, como uma ciência da comunicação, também se dilatou na multi e transdisciplinaridade, propiciando o diálogo e intercâmbio conceitual com a epistemologia, a história das ciências, as ciências sociais, a psicologia, a psicanálise etc. Nesse contexto, desde 1992, um fenômeno importante e original começou espontaneamente a brotar no programa de COS. Começaram a surgir, pouco a pouco, Centros de Pesquisa ligados às linhas de pesquisa que estão definidas como extensões diretas das áreas de concentração do programa.

Dentro do espírito da criação de atividades de investigação que não se restringem apenas a aulas, na busca de abertura de espaços de convivência e troca intelectual que sempre foram estimuladas enfatizadas no programa de COS, começaram a ser fundados Centros de Pesquisa a partir, muitas vezes, da iniciativa de alunos que desenvolvem pesquisas em torno da área de especialidade de um ou mais professores. Através de workshops, conferências de especialistas, grupos temáticos de trabalho e pesquisa bibliográfica coletiva, os primeiros Centros foram se integrando tão fluidamente dentro da vida do programa e suas atividades sendo tão profundamente proveitosas para os alunos e professores, que outros professores e alunos também se viram na necessidade de abrir outros Centros aglutinadores de pesquisa.

Com isso, de 1992 para cá, já contamos com 11 Centros de Pesquisa, ligados diretamente ao programa, mas com funcionamento relativamente autónomo. Embora não estejam atrelados às normas regulamentares de disciplinas e créditos, os Centros podem promover atividades que têm valor de crédito para os Núcleos de pesquisa e Atividades programadas para doutorado, de acordo com o regulamento. As atividades desenvolvidas vão desde cursos temáticos, longos ou breves, conferências, simpósios, publicações, grupos de estudos com especialistas convidados o que tem grandemente animado o programa de COS de uma maneira surpreendente, acelerando a produção dos alunos, promovendo a interação frutífera das pesquisas. Um verdadeiro exemplo do que deve ser uma vida acadêmica e intelectual saudável e prolífica.

O sonho de criar um Centro de Estudos de Peirce já era muito antigo, bem anterior a essa saudável explosão de Centros e atividades acadêmicas e criativas a que o programa de COS tem dado guarida. Afinal, era necessário dar maior integração e visibilidade também maior às inúmeras pesquisas tanto teóricas quanto aplicadas sobre a obra de Peirce que, ao longo de quase três décadas, têm se frutificado na PUC/SP. Entretanto, os afazeres acadêmicos cotidianos, sempre assoberbantes, foram retardando esse sonho. O Centro de Estudos Peirceanos (até 2003 chamado de CEPE e de 2003 a 2006, chamado CENEP), apesar da tradição e do solo fértil que o programa de COS oferecia para sua existência, não foi o primeiro Centro de extensão à Pesquisa a ser criado nesse programa. Outros o antecederam e lhe acenaram com a promessa de que a iniciativa valia a pena. De fato, em 1996 os ideais de muitos anos tomaram corpo e o Centro de Estudos Peirceanos entrou em funcionamento.

2. Objetivos e funcionamento do Centro Internacional de Estudos Peirceanos (CIEP)

Coordenação Geral: Profa. Dra. Lucia Santaella (fundadora)

Direção Executiva: Dr. Priscila Borges e Dr. Roberto Chiachiri

Direção Científica: Profa. Dra. Maria de Lourdes Bacha

Secretaria: Prof. Roberto Chiachiri

Além de promover conferências abertas ao público ao longo do ano letivo, o CIEP conta com Grupos de Estudo, cujos membros se reúnem regularmente para que as investigações possam avançar de forma solidária e colaborativa.

O CIEP tem 3 linhas de pesquisa: Semiótica Teórica, Semiótica Interdisciplinar e Semióticas Específicas. Nessas linhas estão em atividade sete diversos Grupos de Estudo. Cada grupo promove eventos ao longo do ano, como palestras, seminários e fóruns de discussão abertos aos interessados em geral.

A participação nesses grupos é aberta tanto aos alunos do COS/PUC-SP como a todos os interessados em geral, mesmo que não sejam alunos do programa, nem dessa universidade. Basta entrar em contato com os coordenadores de cada grupo e obter informação sobre a dinâmica de funcionamento dos mesmos. (para maiores informações, ver a seção “grupos” deste site)

No perfil que o define, o CIEP visa dar suporte a uma ampla gama de interesses de estudos:

(a) aqueles que buscam em Peirce apenas inspiração para a consecução de uma ética do trabalho intelectual;

(b) aqueles que querem penetrar nos meandros da teoria geral dos signos tendo em vista a sua aplicação aos mais variados processos de comunicação;

(c) aqueles que procuram solidificar seus métodos de investigação apoiando-os em uma lógica de sentido amplo, sustentada na concepção do pensamento como processo sígnico, inseparável das linguagens que lhe dão corpo;

(d) aqueles que são atraídos para a reflexão das fundações ontológicas e epistemológicas do universo das linguagens e da comunicação;

(e) aqueles cujo desejo está voltado para a exploração das interfaces da comunicação e semiótica com outras áreas de conhecimento, especialmente a filosofia em geral e a filosofia da linguagem em particular, assim como os estudos cognitivos e psicanalíticos, ambos indissoluvelmente tecidos nas tramas da linguagem;

(f) aqueles, enfim, que desejam muito puramente se transformar em especialistas na obra de Peirce, deixando a marca d um caminho próprio na assunção de uma interpretação responsável.

A obra de Peirce é suficientemente gigantesca, multifacetada, dialógica e internamente coerente para atender a todos esses interesses.

Para o coroamento anual ou semestral dessas atividades, o Centro realiza desde 1997, suas Jornadas de trabalho. Essas jornadas têm por finalidade principal recolher e compartilhar os principais frutos alcançados pelos grupos de estudo, contando sempre com a participação de convidados com interesses semelhantes. É um momento dedicado ao debate com os pares. Afinal, uma pesquisa só tem verdadeira existência quando toma corpo num texto que se põe a público. Esse é o significado de uma jornada. Permitir a discussão, o confronto, sem os quais as idéias não podem crescer, ou seja, promover o crescimento contínuo, crítico e colaborativo das idéias semióticas.

Além de uma função de congraçamento, as Jornadas do CIEP (anteriormente chamadas “Jornadas do CEPE” e depois CENEP) visam também promover um balanço avaliativo das tarefas realizadas, permitindo um reajustamento dos rumos futuros. Como registro das Jornadas, ficam os Cadernos (veja em Textos), documento apenas indicador do esforço humano investido por todos aqueles que têm se empenhado para manter o Centro de Estudos Peirceanos não apenas vivo, mas digno de sua existência.

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